Pandemia não é brincadeira: o que as crianças pensam sobre crise, isolamento e volta às aulas; VÍDEO

G1 conversou com seis crianças, de diferentes realidades sociais, para saber como elas estão enfrentando as mudanças trazidas pela Covid-19. Pandemia não é brincadeira
Como as crianças estão lidando com tantas mudanças trazidas pela pandemia? Será que elas se adaptaram às aulas remotas? Estão com saudades de brincar sem máscara? Têm medo de perder alguém querido? Passaram por dificuldades financeiras? Ajudaram outras pessoas?
O G1 conversou com seis delas, de diferentes regiões do país e realidades sociais. São crianças que vivem em capitais, cidades menores e até na área rural. Estudam em escolas públicas e particulares, e tiveram de se adaptar a diferentes formatos de ensino. Uma delas, por exemplo, teve que buscar sinal de internet no meio do mato para conseguir estudar. Outra já voltou a ter aulas presenciais e fala sobre a nova rotina na escola.
Assista ao vídeo acima e confira o bate-papo.
Leia abaixo mais detalhes sobre as histórias das crianças.
Adriel
Adriel é apaixonado por livros
Jornal Nacional
Em abril de 2019, Adriel Oliveira, de Salvador, criou uma conta em uma rede social para falar de literatura e postar pequenas resenhas de livros. Neste ano, durante a pandemia, o menino recebeu uma mensagem racista na sua página. “Uma pessoa disse que não era para eu estar lendo, e sim cavando uma mina. Também me chamou de gordo”, conta.
Ele respondeu: “em pleno século 21, pessoas ainda são racistas? Atualizem-se. Insultos acabam com o psicológico de pessoas fracas, esse tipo de coisa não me abala em nenhum ponto. Aliás, tenho orgulho de ser negro”.
Depois da repercussão do caso, Adriel recebeu uma homenagem da Academia Brasileira de Letras (ABL), além de doações de quem se sensibilizou com a história. “Vieram várias coisas boas, não só para mim, mas também para a minha mãe e para o meu padrasto. Ganhei um quarto, me mudei e saí do bairro onde morava, consegui um celular novo, um notebook e vários livros”, diz Adriel.
As novidades ampliaram as possibilidades de estudo durante a quarentena. Antes, o menino era aluno de uma escola pública e não tinha acesso adequado às aulas on-line – o único celular da família era usado pela mãe. Para apoiar o caderno, Adriel levantava o colchão e usava o estrado da cama.
“A gente passou por muitas dificuldades financeiras, porque minha mãe sustentava a casa com comida e também comprava os remédios do meu padrasto, que eram muito caros – tudo com R$ 1 mil”, diz. “Foram situações muito difíceis. Vendi meus livros em sebos para ajudar.”
Depois das doações, Adriel foi transferido para uma escola particular e ganhou materiais novos. Também está conseguindo acessar o ensino remoto, enquanto as atividades presenciais não são retomadas. “Meu maior medo é voltar para a minha realidade antiga, para a estaca zero. É eu acordar e isso ser um sonho.”
Gabriel
Gabriel ficou famoso na web com postagem do ‘bilete’ que escreveu tentando se passar pela professora
Marcelo Risso / TV TEM
Gabriel Lucca, de Bocaína (SP), ficou famoso depois de escrever um certo recadinho para a mãe em 2018. Na tentativa de ficar em casa, o menino fingiu que a professora havia mandado uma carta para a mãe dele. “Amanhã não vai ter aula, porque pode ser feriado. Ass: Tia Paulinha. É verdade esse bilete”. É claro que a travessura virou meme.
Dois anos depois, com a escola fechada por causa da pandemia, Gabriel jura que sente saudades da professora e dos colegas. “Eu queria muito que o coronavírus sumisse”, diz.
Marina
Maria com os laços idealizados por ela e produzidos pela avó para ajudar instituições de Guaranésia (MG)
Divulgação/Marina Segretti Castelar
Preocupada com os efeitos da pandemia, a menina Marina Segretti Castelar, de 9 anos, decidiu fazer uma campanha para ajudar hospitais da sua cidade, Guaranésia, no Sul de Minas. Ela contou com a ajuda da família para fabricar e vender “scrunchies” (laços que podem ser usados no cabeça ou como acessório no braço). E, assim, conseguiu doar R$ 6 mil para três instituições: Santa Casa, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) e Banco Ortopédico.
As campanhas tiveram ainda outros efeitos: conseguir manter a avó de Marina – que é do grupo de risco para o novo coronavírus – quietinha e ocupada em casa. Dona Nadir Franco Segretti, de 85 anos, é quem fabrica os “scrunchies”, que são vendidos por R$ 5 a unidade. “Agora minha avó está caminhando, o que foi muito bom para ela, mas de qualquer forma, ela está bem trancadona em casa”, contou Marina.
Além das campanhas de solidariedade, quase todo o tempo da menina é dedicado aos estudos. Ela disse que conseguiu se adaptar bem ao ensino on-line. “Agora que eu estou ficando em casa e não vejo muita gente, estou fazendo resumos.” Embora sinta muita falta dos amigos, ela não gostaria de voltar à escola agora. “Mesmo tomando os cuidados, continua tendo aglomeração.”
Isabel
Vizinhos emprestaram internet para Isabel poder estudar todas as tardes em Roncador
Reprodução/RPC
Isabel Cravicz, de 10 anos, sofreu no começo da pandemia. Moradora da zona rural de Roncador, no Paraná, ela não tinha internet em casa para acompanhar os estudos. “Eu fiquei muito triste quando descobri que as aulas eram on-line”, contou.
Para contornar o problema, ela ia todos os dias até o sítio dos vizinhos para ter acesso à internet e conseguir estudar usando um celular. Mas ela precisava manter distância da casa deles, porque são idosos e do grupo de risco para Covid-19. “Às vezes chovia, eu me molhava, era sol, ventava, aí eu e minha mãe tivemos a ideia de construir uma cabaninha.”
Com a repercussão da história de Isabel, uma empresa de telecomunicações colocou uma torre na comunidade e levou internet até a casa da menina e de várias outras pessoas.
Assim, a rotina da menina ficou mais fácil. Sem irmãos, ela aproveita a companhia dos pais e dos seus animais preferidos – cachorros, uma carneira e uma bezerrinha -, enquanto espera o retorno às aulas presenciais. “Brinco muito com meus animais, subo bastante em árvore e brinco de jogos de tabuleiro e cartas com minha mãe e meu pai.”
Carlos
Carlos Augusto de Souza, de 10 anos, aluno de Manaus
Reprodução/TV Globo
Carlos Augusto de Souza, de 10 anos, estuda em uma escola particular de Manaus. Como as aulas presenciais já foram retomadas na cidade, ele enfrenta um desafio diferente das demais crianças: acostumar-se a trocar de máscara de hora em hora, a não abraçar os amigos e a ver sua turma dividida em pequenos grupos.
“Apesar de todas as mudanças, eu estava muito ansioso para voltar. Quando estou lá, é uma sensação maravilhosa”, conta Carlos.
Mas ver os amigos significou também receber notícias tristes. “O pai do meu amigo está internado com coronavírus. O pai de um outro, que joga bola comigo, morreu. Mas estou otimista que a vacina saia logo”, diz.
Sofia
Sofia Pacheco, de 10 anos, estuda em uma escola pública da periferia de Belém. No começo da pandemia, a menina e seu irmão gêmeo faziam as atividades pedagógicas na cama do quarto. Depois, o pai das crianças teve uma ideia. “Ele construiu uma bancada de madeira para a gente. Agora, temos um lugarzinho para estudar”, conta Sofia.
Ela não vê a hora de voltar para a escola. “De vez em quando, falo com os meus amigos pelo celular, mas tenho muita saudade deles, das professoras e das lições”, diz.
E as regras de isolamento social foram rígidas na casa da família. Como as duas crianças têm problemas respiratórios, são do grupo de risco para a Covid-19. Preocupada, a mãe optou por não permitir que saíssem para a rua.
Sofia diz que “foi muito estranho”. “Antes do vírus, a gente ia para a casa da minha avó. Agora, é arriscado. Também senti falta de brincar lá fora. A gente pula corda na sala.”
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