Alternativas ao crédito: especialistas dão dicas para pequenas e médias empresas


Procura por empréstimos cresceu durante a crise causada pelo coronavírus e as novas linhas de financiamento não conseguem atender a todos. Empresas de pequeno e médio portes buscam alternativas para sobreviver à crise
Reprodução TV Globo
A crise causada pela pandemia do coronavírus fez disparar a procura de crédito pelas micro, pequenas e médias empresas do país. Como resposta, foram lançadas linhas específicas de financiamento, mas elas não foram suficientes para atender a demanda.
O número de pequenos negócios que tentaram crédito e não conseguiram subiu na última semana de agosto, comparado com o mesmo período do mês anterior, passando de 56% para 61%, de acordo com pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).
“Existe uma lacuna de crédito em torno de R$ 200 bilhões no ano. O Pronampe, por exemplo, correspondeu a dois meses dessa demanda e já estamos no sexto mês da pandemia. Isso dá uma clara noção da insuficiência”, afirma Lauro Gonzalez, coordenador do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV.
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Mas especialistas alertam para a importância de buscar outras opções, além do financiamento bancário tradicional.
Veja as principais dicas de Ivan Hussni, diretor técnico do Sebrae-SP, e de Márcio Wu, coordenador do Instituto de Finanças da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap):
Renegociar com os fornecedores é o primeiro passo. De maneira transparente, é importante negociar prazos maiores e carência para os próximos pagamentos;
Reduzir custos e investimentos: a ideia é colocar tudo na ponta do lápis e fazer um orçamento de caixa;
Antecipar os recebíveis assegura o fluxo de caixa e não compromete o saldo mensal da empresa;
Negociar com os funcionários a possibilidade de diminuição da carga horária com redução do salário ou antecipação das férias. “A demissão pode ser uma opção, mas pode custar caro para o empresário”, afirma Wu.
Para quem tentou o crédito, não conseguiu e está com dificuldades de colocar essas dicas em prática, Hussni indica procurar o Sebrae para “fazer uma gestão rápida e drástica”.
“É preciso ter orientação de gestão, controle de custos, margem de lucro, conhecer bem o negócio, fazer um controle interno. Da porta para fora, precisa acessar mercado e vender mais”, afirma Hussni.
É hora também de repensar as ações e fazer as mudanças necessárias, de acordo com Márcio Wu, da Fecap.
“O principal agora é se reinventar tanto com relação ao produto ou serviço oferecido, como na eficiência e na logística da operação”, diz Wu.
Alternativas financeiras
Se a opção for mesmo ir em busca de dinheiro, existem múltiplos caminhos para chegar aos recursos financeiros ideais além dos bancos tradicionais.
Pensando nisso, a Endeavor, rede global de fomento ao empreendedorismo, lançou em setembro o “Mapa de Acesso a Capital”, um guia para ajudar empresários a tomar as decisões certas, de acordo com o tipo de negócio e o momento da empresa. O material é gratuito.
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Na prática, o mapa mostra conceitos e explicações para acessar 9 alternativas de financiamento:
Investimento anjo: recurso para financiar a viabilidade de empresas iniciantes.
Seed: investimento para empresas em estágio inicial que estão em busca do product market fit, ou seja, que precisam saber o grau que um produto satisfaz uma forte demanda de mercado.
Série A/B: para negócios que já estão numa fase mais avançada e que querem dimensionar o produto e alavancar o crescimento.
Growth capital: para quem quer acelerar crescimento, ampliar ou reestruturar operações, entrar em novos mercados ou financiar uma aquisição.
Private equity: investimento em empresas já consolidadas e que atuam em indústrias tradicionais. Pode ser usado por empresas de médio porte, que querem crescer, realizar aquisições, expandir geograficamente e aumentar a oferta.
Capital de giro: empréstimo de curto prazo para equilibrar o caixa.
Linhas de crédito: financiamento de médio prazo para apoiar operações de investimento de acordo com a necessidade.
Debêntures: usado para aquisição de máquinas e equipamentos, inovação em processos e produtos, importação e exportação, entre outros. Pode ser emitido no mercado privado ou público.
Venture debt: investimentos de médio e longo prazo para financiar o ciclo operacional da empresa, fusão e aquisição, recompra de ações e financiamento de equipamentos para expansão da operação.
Os empresários também têm acesso a informações sobre mais de 150 fundos, 70 fintechs, 23 bancos de desenvolvimento e agências de fomento, além das linhas de crédito ofertadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e Banco do Nordeste, com detalhamento das condições oferecidas.
“O capital é importante para a retomada de crescimento das empresas. A partir dele, todas as estratégias podem se tornar realidade”, afirma Karina Almeida, especialista em acesso a capital da Endeavor.
“Quando você toma decisões erradas, pode comprometer seu negócio, ter um crescimento mais tímido ou até quebrar. As decisões do início determinam toda a jornada. Não queremos empreendedores errando nessas decisões”, completa Renata Mendes, gerente de políticas públicas da organização.
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